O demônio do Catulé: O surto religioso no interior de Minas Gerais

O demônio do Catulé: O surto religioso no interior de Minas Gerais


Vídeo em nosso canal sobre esse caso: 



Catulé é um local que fica a 2,5 KM numa clareira localizado dentro da Fazenda de São João da Mata, que fica a 15 quilômetros de Malacacheta (malacaxeta).

 


Norte de Minas Gerais, se trata de uma região montanhosa do Alto Jequitinhonha.

 

A fundação da cidade ocorreu em 1874, uma região agreste que pertencia aos índios malacaxis, que foram expulsos de suas terras por colonos depois de uma luta cruel, marcada pela brutalidade. 

 

O local era humilde e havia dificuldade de expansão. No início de 1950 algumas fazendas do município de Malacacheta receberam famílias camponesas.

 

Estes por sua vez procuravam terras onde pudessem trabalhar. E é nesse período que segundo os relatos dez famílias maltrapilhas se fixaram na fazenda São João da Mata.

 


Isso ocorre porque um dono de fazenda aceitava pessoas para trabalhar na agropecuária. Porém essas pessoas só tinham permissão para morar num local dentro da mata chamada Catulé.

 

Nesse local as famílias que eram bem humildes, construíram pequenas casinhas bem simples, outros faziam barracos, outros até construíam casa melhores.

 

Tudo isso era próximo de onde eles desenvolviam suas atividades no campo. Onde lavravam, plantavam e colhiam. Se calculam que haviam 44 pessoas somando adultos, crianças e idosos.

 

Em sua maioria eram pessoas bastante simples e não sabiam ler nem escrever seu próprio nome, mas tinham algo muito forte entre eles que era a religião católica era seguida à risca.

 

Em 1955, a população regional de Malacheta era de aproximadamente 35 mil pessoas, que tinha como atividade econômica principal a agropecuária.

 

Em 1930 a Igreja Adventista da Promessa crescia no Brasil, principalmente em São Paulo, especialmente nas comunidades rurais e em locais mais humildes.

 

E é em Outubro de 1954, que chega em Catulé também para trabalhar um rapaz chamado Onofre, nesse período ele tinha de 27 anos de idade e era solteiro.

 

Havia vindo de Presidente Prudente da região paulista. Diferente da maioria dos trabalhadores que ali se encontravam Onofre era alfabetizado.

 

O rapaz era um catequizador de um culto chamado Adventista da Promessa, ou seja, tinha um objetivo que não era só lavrar terra.

 

Ele tinha intenção de apresentar sua crença aquelas pessoas, faze-los acreditar na fé que ele tinha. Mas sabia que sozinho não se chega a lugar algum, precisava de outro iluminado como ele.

 

Assim ele conhece Joaquim um rapaz de 26 anos e também solteiro, logo Onofre trata de conversar e pregar a palavra de Cristo com o rapaz. Que encantado com tudo aquilo se converte a religião.

 

Não demorou muito os dois se tornaram líderes religiosos do local, indo aos lugares levando a doutrina religiosa as pessoas mais humildes do local.

 

Pregavam na região a vinda de Jesus Cristo. Ou seja, Jesus Cristo já está chegando desde 1955.

 

E aquelas palavras de Jesus Cristo está chegando era falada com tanta certeza, que as pessoas passavam a acreditar naquilo tudo que o Onofre pregava.

 

Isso ocorria porque ele era o único alfabetizado, então ele pegava partes da bíblia sem contexto nenhum e pregava o que ele entendia e também aquilo que ele queria.

 

Afinal quem saberia o que de fato estava escrito na bíblia e interpretar piorou. Automaticamente ele explicava do jeito dele, enfatizava sobre os milagres.

 

Não demorou muito para ganhar a admiração daquele povo humilde e sofrido, que pouco sabia sobre questões bíblicas. Passavam a acreditar fielmente sobre a realização de milagres.

 

E impactados por aquele par de olhos convincentes e seu belo discurso que é fácil de falar a quem não entende nada. Os fiéis o viam como um homem magnífico.   

 

Onofre ensinava aos fiéis passagens bíblicas, fazia com que eles gravassem a palavra de Deus e a cantarem os louvores da religião.

 

Assim foi se criando uma comunidade religiosa, onde eles se organizavam em reuniões semanais, nas quartas, sextas e domingos que ocorria nas casas das pessoas.

 

Então dia a reunião era na casa de um, outro dia na casa de outro. Aos sábados pela manhã ocorria o culto num local próprio deles que ficava a 1 hora do vilarejo.

 

A partir disso, praticamente todas as atividades religiosas giravam em torno religioso o que era muito favorável para os membros da congregação.

 

A cultura das pessoas também girava em torno da doutrina adventista, portanto não comiam carne de porco, não ingeriam bebida alcoólica, nem utilizavam de cigarros.

 

Os religiosos deveriam cumprir a risca os 10 mandamentos, trabalhar muitos, serem fiéis a palavra e guardar os sábados.

 

Bem como não iam a bailes ou festas, muito menos cantar ou ouvir músicas do mundo. Entre os membros deviam tratar-se com o máximo de respeito.

 

Nem discutir não poderia, pois discussão é pecado. Portanto caso ocorresse alguma desavença era preciso um pedir perdão para o outro, isso era feito juntos e ao mesmo tempo.

 

Assim desenvolvia o espírito de solidariedade. As roupas seguiam um padrão para que não ocorresse o pecado da vaidade. O sexo também deveria ser evitado.

 

Afinal o sexo é um luxo que deve ser evitado. Ou seja, não pode nada de nada de nada. Nenhuma distraçãozinha nada, o negócio é seguir as obrigações.

 

Cada vez mais o Onofre conseguia mais fiéis que eram batizados pela água purificadora e logo aquelas pessoas levantavam daquele banho falando outra língua.

 

Mas aquilo era um mistério, como falar outra língua aquelas pessoas que não eram alfabetizadas, nem eram estrangeiras? É que são línguas únicas.

 

Não se sabe o que significa, sabe porque? Não tem significado. Mas isso é um sinal. Sabe qual?  A pessoa que passa a falar a língua estranha tem um compromisso com o espírito santo. 

 

E é aí que a vaca vai pro brejo, pois é a partir daí que o pecado deve ser temido. Uma vez que fala língua estranha todo cuidado é pouco! Falou língua estranha? Agora mesmo é a hora de ser puro!

 

E mais cada um ali da religião deveria estar ciente de que a profecia alertava exclusivamente a importância de estar puro para o grande dia. Que seria a chegada do "Milênio", do "Fim dos Tempos" e do "Dia do Julgamento".

 

Eles acreditavam que o Milênio marcaria o Retorno de Cristo, que é o período de atribulações, as mudanças do mundo e que somente os mais puros e fiéis sobreviveriam.

 

Mas que os sobreviventes iriam desfrutar desse "Mundo Novo" e viveriam a vida plena, num mundo de fartura e todos os benefícios de Deus.

 

Aquele sonho de uma família feliz fazendo pique nick num campo verde. Mas os pecadores, aqueles que fazem sexo, que dançam, que bebem vinho seriam todos destruídos pela severa mão de Deus.

 

Qual a recompensa de estar na religião? A mudança de vida, afinal eles são justos então teriam tudo aquilo que eles sonhavam, que desejavam e almejavam.

 

Com uma proposta dessa quem vai querer outra coisa? Foi assim que os trabalhadores do Catulé foram se convertendo a essa nova religião. Aceitos foram formando a Irmandade.

 

Mas sempre tem alguns que são a ovelha negra, desses eu gosto mais. As ovelhas negras não queriam se converter, logo passaram a sofrer represálias, serem excluídos e se tornaram a minoria.

 

Sendo a minoria e gradualmente afastados do convívio consequentemente foram expulsos. Os vizinhos do local eram isolados por completo, pois eram vistos como pecadores.

 

Esses vizinhos sabiam exatamente o que acontecia na Clareira do Catulé e acreditavam que seus habitantes simplesmente haviam adotado um culto fechado.  

 

Enquanto os vizinhos assim pensavam a irmandade crescia, prosperava com novos religiosos. Com isso adquiriam a prática da confissão pública e aumentou controle do pecado um com o outro.

 

O que foi tornando o grupo cada vez mais fechado e que deveria ser feito tudo em nome do grupo. Foi assim que iniciou a paranoia do coletivo.

 

Essa paranoia foi se revelando através da presença de Satanás, pois o medo com tempo foi tomando conta. E as acusações um contra o outro foi aumentando.

 

Foi assim que começou a ocorrer comportamentos sexuais estranhos entre o grupo, aquilo obviamente era pecado e assim iniciaram as agressões e mortes. Tornando o local comportamentos surreais.

 

Os fiéis eram alertados a todo instante que o fim estava muito próximo e que a data limite seria o domingo de Páscoa, eram convencidos a doar seus pertences.

 

A rotina se baseava em alguém acreditar que algo ocorreu de errado, um objeto que surgiu na casa de alguém, eles julgavam ser a presença diabólica e culpavam alguém.

 

O culpado era agredido pelo Joaquim, espancado até o capeta sair do coro e depois que a pessoa estivesse extremamente espancada era liberada, algumas vinham a óbito.

 

Então para apaziguar os pecados e colocar a vida em ordem ocorriam uma espécie de banho da purificação que faziam na cacimba, onde o grupo ficava pelado na ritualística.

 

Bem como depois passaram a andar no local nus, como Adão e Eva no paraíso.

 

Com isso a situação foi se tornando cada vez mais pesada entre os membros. As pessoas não conseguiam mais dormir, muito menos trabalhar.

 

O povo pobre, passou a ficar cada vez mais povo e escasso de comida.

 

Passaram a ficar reunidas e a todo momento rezando e cuidando do outro que pecava, ou que eles julgavam estar em possessão demoníaca. As crianças não eram mais alimentadas por suas mães.

 


Isso porque elas temiam que o diabo havia se encarnado no corpo dos filhos. Logo foram instruídos a se livrarem dos filhos, pois as crianças eram alvos fáceis do demônio.

 

Qualquer atitude comportamental das crianças, como bagunça, desobediência, choro era motivo para desconfiança de que o mal habitava naquele corpo.

 

Na semana de Páscoa as coisas dentro da comunidade tomaram um rumo ainda mais intenso.

 

No da semana de Páscoa, uma moça chamada Maria dos Anjos estava cochilando durante o culto na soleira da porta. Foi quando Arculiana irmã de Joaquim fez um comentário com o irmão.

 

 

Que o diabo estava na mulher, que ela viu a manifestação de uma entidade diabólica. E foi assim que Joaquim iniciou uma sessão de espancamento contra a moça. Seu objetivo era "expulsar Satanás".

 

Que ele mesmo havia presenciado entrar no corpo da jovem e dominar sua vontade.

 

Ao surrar a mulher repetidas vezes, o diabo do corpo saiu e deixou ela voltar para casa. Todos assistindo aquilo e cada vez mais tinham a certeza da presença diabólica.

 

Todos acreditavam fielmente em tudo que os sacerdotes diziam, se precisasse espancar seja lá quem fosse que espancasse o importante era afastar o diabo da presença deles.

 

Mais tarde, naquela mesma noite um pedaço de rapadura surgiu “misteriosamente” no terreiro da casa de um dos crentes.

 

A família que vivia naquela vila havia dito que sentia fome e a aparição da rapadura foi um atentado do Satanás. O demônio havia enviado o alimento como forma de tentação.

 

A família decidiu que a rapadura seria enterrada para que ninguém caísse em tentação de comê-la. Mas de madrugada, uma mulher chamada Eva, desenterrou o alimento.

 

Ao comer um pedaço dele, o demônio se manifestou em seu corpo e foi visto pelos seus próprios familiares que aterrorizados a dominaram e amarraram.

 

O Irmão Joaquim foi imediatamente chamado e Eva também apanhou até o diabo sair. No dia seguinte Joaquim mandou reunir a Irmandade do Catulé para anunciar o que estava acontecendo:

 

Ele declarou que Satanás estava habitando entre eles e que sua presença podia ser presumida no comportamento de algumas pessoas da congregação.

 

O diabo precisava ser combatido e removido do corpo daqueles que ele escolhia possuir. Os membros do culto ficaram chocados com a revelação e alguns se perguntaram se não seria um exagero.

 

Joaquim então gritou para que os demais o acompanhassem até a casa da menina Maria dos Anjos que dormia em sua cama. Entraram de supetão, arrancando a menina da cama aos gritos com tapas e pontapés.

 


Na confusão um pintinho saiu debaixo da cama e Joaquim disse que era o demônio saído do corpo de Maria dos Anjos tentando escapar.

 

Esmagaram o pinto e arrastaram a menina para fora, obrigando-a a ajoelhar-se no meio deles para receber uma benção coletiva. Para evitar uma nova obra maligna.

 

Foi assim que iniciaram as trocas de nome, para enganar o diabo e os fiéis terem um nome santo, cada um escolheu seu novo nome que era bíblico.

 

O Joaquim queria se chamar Jesus, outro se chamava Moisés e assim por diante.

 

No dia seguinte na quarta-feira, após o encerramento do culto: Joaquim viu um demônio se fazer visível por um instante e quase entrou no corpo de um homem chamado Manuel.

 

Visto tal ato diabólico ele agarrou o religioso e passou a sacudir com força o pobre coitado. Os irmãos da igreja assistiam aquilo sem qualquer interferência. 

 

A quinta-feira, foi marcada por uma menina de treze anos chamada Conceição afirmou que Satanás se encontrava na casa de Adão.

 

Os membros da congregação foram até a casa do homem. Ao chegar lá, o julgado jurou não estar possesso, porém ele tinha um gato. Logo adivinhem onde estava o demônio? No corpo do gato.

 

Nesse momento Joaquim correu atrás do gato que, em fuga, derrubou uma lata de querosene. O barulho fez com que a menina Nelcina acordasse.

 

segundo contam, Joaquim vendo a menina se espreguiçar, disse que Satanás entrou nela. Quando saíram de casa traziam Nelcina amarrada, pois ela estava com o capeta.

 

Pelejaram muito para tirar o demônio de seu corpo. Joaquim batia-lhe e gritava: "Sai, Satanás! Sai, Satanás!". Mas Satanás não queria sair.

 

Artuliana relatou mais tarde a obstinação do demônio, disse que ouviu a menina, que era gaga, falando com a voz firme, afirmando que Satanás queria morar com eles no Catulé.

 

Mas somente Artuliana ouviu a menina dizer isso, enquanto os outros só ouviam a menina chorar. Alguns ficaram com pena da menina, mas Joaquim disse que o diabo é que estava chorando.

 

O sacerdote manda todos que estavam ali virarem de costas para a menina de 12 anos. Enquanto João pegou-a pelos pés levantou a garota e batia com a cabeça dela no chão.

 

Nelcina, suportou até onde pode. As surras se intensificaram e ela acabou falecendo, mas os membros não perceberam e continuaram rezando.

 

Depois disso deixaram o corpo da pequena garota num canto, amarrada com corda de embira.

 

Ninguém ali podia ajudar, pois era repreendido. Afinal quem iria ajudar uma endemoniada? Só se fosse outro ser endemoniado. Pois o diabo ele passa de pessoa pra pessoa que se aproxima do que está em possessão.

 


Devido aos ferimento que a garotinha sofreu, a mesma veio a óbito. Quando chegou a noite, três cachorros e dois gatos que se aproximaram do corpo de Nelcina.

 

O corpo permanecia isolado, os animais que se aproximaram foram mortos com porrete. E queimados na fogueira acesa no centro da comunidade.

 

Isso para que o demônio não se espalhasse. O corpo da menina para não ser encostado por ninguém, foi puxado por uma corda até a fogueira. Sim deram fim no corpo com fogo.

 

E também foi queimado junto ao corpo as roupas e objetos dela, pois segundo eles tudo que era dela "fedia a Satanás".  Mesmo assim eles não paravam. O sobrenatural ocorreu com mais intensidade.  

 

A Maria dos Anjos que havia sido punida por Joaquim, de tanta agressão que sofreu que criou um edema no rosto, uma espécie de caroço também no pescoço.

 

Sabe o que era aquilo na visão dos religiosos e irmãos da igreja? Sinal do demo.

 

Que por sinal foi confirmado pelo próprio Joaquim que tocou no caroço do pescoço de Maria dos Anjos. Ele por sua vez pergunta a garota o que o demônio estava fazendo no meio deles?

 

Ela por sua vez responde que estava esperando para casar com ele conforme ele havia prometido. É quando ele levanta a voz e diz: Irmão vejam o diabo falando em casar.

 

E depois confirma que havia se deitado com a garota Maria dos Anjos por cinco noites. E ficou claro para todos que ela não era mais virgem.

 

Joaquim manda todos virarem de costas pra ela para que orassem, ela aproveita o momento para fugir. O Jesus na terra sai correndo atrás dela com um porrete e a arrasta de volta para perto dos religiosos.

 

E mais uma vez ele diz que ela estava possuída pelo demônio já faziam 15 anos e que ela nunca iria se livrar dele.

 

Ele acaba descontando toda raiva ainda em uma menina chamada Dorvalina que tinha apenas 7 anos. Do nada ele queria avançar na criança e ela para se defender recitou um versículo da bíblia que havia decorado.

 

Mas Artuliana ouvindo aquilo diz: olha o demônio recitando a bíblia, a menina tomada pelo desespero escreve no chão com um pedacinho de pau algumas letras do alfabeto.

 

Artuliana fala mais alto: olha o diabo querendo escrever. Aquilo foi o suficiente para que a garota fosse e bastante espancada.

 

Segundo a teoria de Artuliana que tinha e muito peso entre os irmãos, todas as crianças que eram filhos de pais casados e que foram batizadas por padre tinham o diabo no coro.

 

Na sexta feira de manhã, o Irmão Adão, querendo dormir, sacudiu a esteira e viu um galo. Mas esse galo era estranho demais, o animal o cumprimentou como gente.

 

Logo ele sente a presença do demônio no galo, Adão sai correndo para junto dos outros para avisar. Os irmãos que até fome passavam destruíram o galinheiro.

 

As galinhas e galos foram degolados e claro jogados ao fogo. Esse elemento tão purificador servia como meio de salvar a comunidade.

 

Após o evento do galo ocorre outra sessão de tortura. Uma menina chamada Ataíde foi extremamente espancada porque estava toda cinzenta da queima das aves.

 

E segundo Artuliana, outra garota chamada Francisca também foi espancada porque PARECIA estar rindo de tudo o que estava ocorrendo ali.

 

Então era assim se parecesse alguma coisa só parecesse mesmo eles desciam o sarrafo.  

 

No sábado de Páscoa o teatro dos horrores dá seguimento. Um dos irmãos da igreja chamado José foi espancado dentro da própria e  obrigaram sua mulher a deitar-se no chão.

 

Os religiosos apontavam para a mulher dizendo: ‘Olha o Satanás tomando força’. Assim do nada. Além disso também bateram nos dois filhos do casal.

 

Só pararam quando as crianças vomitaram, através do vômito sabia que o satanás tinha saído. Mais ou menos como o vômito do capiroto.

 

E depois disso sim todos estavam purificados e podiam conviver com o grupo. Mas o coitado do José não teve a mesma sorte... dificilmente poderia ser salvo, porque tinha um demônio no estômago inchado e deformado do pobre homem.

 

Joaquim a José que ele fosse até a chapada, se não vomitasse os demônios de seu corpo, morreria lá mesmo. Contrariado, o homem e sua esposa que estava grávida fugiram e deixaram os filhos.  

 

Em meio ao temor geral, o Irmão Onofre afirmou que apenas a oração salvaria o povoado da presença de Satanás que estava deixando suas pegadas em forma de casco pelo lugar.

 

Onofre mandou reunir todos numa das casas e aqueles que não obedeceram foram vistos com suspeita.

 

Durante a oração, Conceição cheia do espírito santo começou a profetizar sobre o "Fim do Mundo", segundo ela a presença do Satanás no Catulé era a forma dele testar os fiéis.

 

Afinal o dia do julgamento havia chegado. Ou seja, era hora dos puros ficar e dos pecadores partir. Assim eles oraram durante o dia todo em uma das casas sem para nem pra comer e nem pra fazer xixi ou outras necessidades.  

 

As meninas Conceição e Artuliana assumiram destaque e liderança no grupo, o que era até então direcionada a homens adultos. Segundo os sacerdotes as duas eram virgens e puras.

 

Sendo virgens e puras conseguiam ver o diabo e apontar onde ele se manifestava. De acordo com a doutrina esse poder era possível pois elas tinham um forte vínculo com o Espírito Santo.

 

Conceição e Artuliana eram as únicas profetizas ali, ela podiam romper a reza e apontar o dedo para gritar e avisar quem estava com o capeta no coro.  

 

Bem ninguém tinha pra onde correr e idade não era desculpa. Elas apontavam o dedo para crianças, adultos, animais e até mesmo alguns objetos.

 

Assim o iluminado irmão Joaquim e outros membros adultos, iam até a pessoa apontada e a espancavam tentando assim "afastar o Satanás".

 

Mas três crianças mais frágeis não suportaram tamanha surra e acabaram morrendo nas mãos de vizinhos, padrinhos e até mesmo de seus próprios pais.

 

Sim os pais que vendo que as iluminadas tomadas pela lavagem cerebral apontaram as crianças como contaminadas pelo capeta, não excitaram em mata-las para tirar o mal do corpo.

 

Mesmo assim as sacerdotisas não paravam de fazer suas revelações e ainda naquela noite elas falando língua estranhas quem interpretava as palavras que saiam da boca delas, era Onofre.

 

Após o discurso de tradução de línguas estranhas as pessoas caiam no chão de joelhos implorando a graça dos céus. Afinal ele dizia que Jesus viria para levá-los à Cidade Celeste de Canaã.

 

Mas ainda frisava que viveriam pela eternidade, mas só alguns seriam aceitos. As pessoas entraram num estado de êxtase e outros em crise de ansiedade esperando sua hora.

 

Tanta era o preparatório da partida que era gente correndo pra quitar dívidas, deixar claro suas pendencias, se despediam e colocavam suas melhores roupas e caprichavam no visual como se fossem entrar na viagem mais importante de suas vidas.

 

José aquele homem que havia fugido com a esposa chega no domingo de manhã em Malacacheta.

 

Consegue procurar ajuda na polícia, contando que coisas terríveis estavam acontecendo em Catulé e que os fiéis ainda perdido totalmente o senso da realidade. Incrédulos ouviam o que o homem dizia, que mais parecia um delírio.

 

Enquanto isso o domingo de Páscoa era comemorado no vilarejo, depois da noite cheia de orações, mortes e espera. As pessoas de Catulé faziam uma fila que era organizada por Joaquim.

 

Os fiéis estavam felizes com o irmão castigador Joaquim, afinal ele os levaria para o paraíso de Canaã. Depois de uma longa batalha contra tantos demônios que se instalou na comunidade, virou um homem santo.

 

As pessoas tinham tanta fé no que ele dizia, que ninguém ousava duvidar do que ele dizia, muito menos desobedecer. Depois que Joaquim ceifou com a vida das crianças com pauladas e pedradas passou a ser chamado de Jesus de Catulé.

 


Todos organizados e pronto a partir pra terra prometida ouviram a ordem de Jesus de Catulé que era a seguinte: para chegar a terra prometida todos deveriam dar saltos.

 

Isso mesmo, dar salto, pular bem alto. Os que estivessem livres dos pecados estariam livres para seguir sua eternidade no céu. Foi aí que começou a galera a pular. INCANSAVELMENTE.

 

E pulavam e pulavam e nada de ninguém partir para a cidade celeste. Eles olhavam atentos e continuavam a pular e nada acontecia, ninguém era arrebatado pelo espírito santo.

 

Exaustos e já sem força à beira de um infarto começaram a ser xingados  pelo novo Jesus, que os culpava por ainda estarem ligados a um vínculo com o mundo material.

 

Foi quando ele continua a falar com as pessoas alegando que era a roupa deles. Que as pessoas não precisavam ter vergonha, podiam ficar pelados, isso mesmo! Peladinhos da Silva.

 

E peladinhos deveriam tomar o banho comunitário com a água da cacimba. As pessoas corriam buscando água, se lavavam ali mesmo, esfregam-se com sabão pra ficar bem purificado.

 

Jogavam água e mais água para tirar seus pecados. Eles estavam em total desespero, aquelas pessoas todas nuas, se banhando, se esfregando chorando e gritavam para que Deus tivesse misericórdia de suas almas.

 

Foi nesse momento de extrema loucura que a polícia chega ao local e se depara com aquela gritaria frenética. Todos chorando e gritando e pelados e pulando como se não houvesse amanhã.

 

Tanto era a gritaria que se ouvia de longe aquele clamor e já era de assustar com o surto coletivo. Os soldados em choque carregavam consigo armas, revólver e espingarda, em punho.

 

Os policiais se apavoraram crendo que não teriam forças contra tanta gente naquele estado. Assim eles gritam que todos estariam presos, os fieis saem correndo para o meio do mato para se esconderem.

 

Menos Onofre e Joaquim, ainda nus caminharam em direção dos soldados dizendo que eram homens de paz. Quanto mais eles se aproximavam a policia não acreditava que eram de paz.

 

Foi nesse instante que dispararam tiros de arma de fogo contra os dois e mais em outro religioso chamado Geraldo que foi em direção aos policiais.

 

Onofre caiu morto na hora mas Joaquim foi ao chão onde ficou agonizando por um tempo. Uma mulher sai correndo do mato para acudir os líderes religiosos, mas nesse instante os policiais dão uma coronhada na cabeça dela que cai desmaiada.

 

Foi assim com barulho de tiro e perdendo seu líder que os fiéis saíram da mata e foram obrigados a aceitar a ordem dos policiais, ficaram em círculos.

 

Um dos religiosos se negava a ficar perto de uma criança, implorava ao policial que o tirasse dali. Ele gritava histérico, pois acreditava que a criança estava endemoniada.

 

Os policiais já perdendo o controle da situação manda o homem calar a boca, que por sua vez tomado pelo medo e pânico da criança. Empurra o garotinho para a fogueira.

 

Somente nesse momento que os policiais se dão conta que na fogueira tinha restos mortais humanos e carcaça de animais.  

 

Joaquim agonizou por um tempo em meio a uma poça de sangue. Ainda conseguiu falar que queria morrer com a palavra de Deus. Foi assim que um dos fiéis arrancou duas páginas da Bíblia.

 

Uma das páginas enfiou na boca de Joaquim que engoliu o papel e morreu. A outra página foi colocada na boca de Onofre que já estava morto.

 

Foi quando os policiais viram os fiéis ao redor do corpo, crendo que não estavam mortos, mas sim dormindo.

 

Na manhã do dia seguinte, os dois soldados retornaram ao povoado mais próximo levando prisioneiros e os corpos dos dois Irmãos abatidos, carregados em padiolas improvisadas.

 

Os acontecimentos no Catulé, foram divulgados pela imprensa da época que causou comoção no país inteiro. Os jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro.

 


Estampavam manchetes com letras garrafais onde se lia à respeito da "Barbárie Inenarrável", de "Massacre Crianças", do "Fanatismo Religioso" e sobre a "Loucura Incompreensível".

 

As notícias falavam sobre o surto religioso, bem como sobre a atitude dos policiais que até hoje o assunto é discutido sobre a ação deles em atirar sem ter necessidade.

 

Diante da situação ocorrida e na ausência de provas, os soldados foram absolvidos de qualquer acusação. Bem como os três protagonistas do caso que sobraram foram postos em liberdade.

 

 

As duas meninas "profetisas", culpadas por apontar os alegados possessos. Um dos participantes, conhecido como João Caolho, ficou detido sem julgamento por quase 9 anos.

 

João considerado como mentalmente insano, foi transferido para um manicômio judiciário como medida de segurança. Saiu do manicômio apenas na década de 1970.

 

Aos demais pertencentes do grupo, não se sabe qual foram seu destino, acredita-se que voltaram a procurar um local para se estabelecer.

 

A história foi estudada por antropólogos e sociólogos que trataram de se debruçar sobre o incidente de um ponto de vista acadêmico. A história ganhou uma adaptação teatral chamada "Vereda da Salvação", roteirizada por Jorge de Andrade, encenada em 1963.

 

Pouco depois, em 1965, a história foi filmada sob direção do cineasta brasileiro Anselmo Duarte que deu tons dramáticos ao ocorrido.

 

Contudo, as obras e tudo que se relacionava com a história seria sucessivamente passível de censura durante o período da Ditadura instituída em 1964.

 

Com tempo essa história foi se perdendo e por mais que pareça uma lenda não é! E isso é um triste caso real, consequência da ignorância e superstição fortemente vinculado a quem não tem acesso à informação.

 

O fanatismo mata, fanatismo por uma figura, fanatismo por ideologia, fanatismo religioso. O desespero leva as pessoas a acreditarem nas palavras de alguém perverso.

 

Referências:

 https://mundotentacular.blogspot.com/2020/02/demonio-do-catule.html

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário